Uns sapatos novos
Tinha comprado uns sapatos um número acima, para permitir que as veias ampliadas e roxas dos pés coubessem lá dentro. Também os dedos se tinham tornado disformes, pareciam dormir palidamente uns em cima dos outros, num estado de desequilíbrio antecipado. Ainda assim, tinha sido boa ideia comprar um 37, em vez do 36 que toda a vida usou. Parecia que os sapatos foram feitos para ela, para rodopiar em cima deles. Sentiu-se bailarina quando os experimentou, e uma bailarina é suposto ter quem a segure pelo indicador e a faça girar, numa roda viva de sentidos. Era nisso que Rosário pensava, enquanto movimentava para trás e para frente o saco dos sapatos novos, no caminho para casa.
Quando acordou no Domingo já passava das 9. Tinha dormido um sono descansado porque no dia anterior recebera notícias do filho, onde sentia tudo estar bem, mesmo através dos habituais monossílabos do outro lado do telefone. Acordou enérgica, e assim que ergueu a cabeça da almofada olhou para os sapatos, que na véspera tinha deixado ao lado da cama, a vigiarem-lhe o sono. Passou a manhã a arranjar-se; colocou rolos, tomou um banho muito quente, evitou tocar na cicatriz da operação que fez o ano passado, para não agourar, e maquilhou-se ao de leve, com muito jeito. Escolheu um batom vermelho-vivo e uma sombra azul para os olhos. O vestido era azul-escuro, com roda, de um tecido espesso o suficiente para disfarçar a lycra da cinta que vestia por baixo. Rosário calçou um sapato, e depois o outro, e após aconchegar os pés frescos de pó de talco nos sapatos, sentiu-se elevar em altura e em beleza.
O baile estava cheio de mulheres de meia-idade pintalgadas. Nestes bailes há sempre mais mulheres que homens, pensava Rosário, mas não fazia mal, porque ela sabia ser a mais bonita de todas, mesmo sendo provavelmente uma das mais velhas. Rosário tinha um gosto refinado para os homens, ou pelo menos assim achava ela. Não lhe interessavam homens com barba mal-feita, que cheirassem a sabonete, a tabaco velho ou que fossem atarracados. Gostava de ser cortejada e repudiava imediatamente algum menos cumpridor de palavra. Nesse dia, e pelo que ela conseguia observar, nenhum homem lhe agradava. Alternava o olhar entre os sapatos novos e a multidão que dançava. Num desses olhares, as pálpebras azuis fecharam-se involuntariamente, durante mais alguns segundos, numa espécie de melancolia de fim de festa. Mas, ora, estava ali para se divertir, pensou num ápice. E logo começou a reparar em casais trôpegos, velhas a ampararem velhos, uns mais coxos que outros, uma confusão de braços engelhados apoiados em corpos moles, mas subitamente vivos. Mulheres excessivamente pintadas, de roupas brilhantes e justas a vincarem a pele descaída, homens a saltitar num quase êxtase adolescente, na esperança de beijar uma senhora à socapa e recordar o fragor da paixão. Sentia-se num circo, num triste espectáculo da velhice, do qual fazia parte. Mas como não havia forma de fugir a isso, Rosário entregou-se à sua condição: levanta-se da cadeira, dá uma volta ao perímetro do baile e sente-se atraída pela nuca de um homem pelo qual passa. Agrada-lhe o corte preciso e minucioso do cabelo, cinzento, tão brilhante que parece prata. Pára ao lado dele e, de sapatos em bico para lhe chegar perto do ouvido, diz: «Gosto desta canção».
Quando acordou no Domingo já passava das 9. Tinha dormido um sono descansado porque no dia anterior recebera notícias do filho, onde sentia tudo estar bem, mesmo através dos habituais monossílabos do outro lado do telefone. Acordou enérgica, e assim que ergueu a cabeça da almofada olhou para os sapatos, que na véspera tinha deixado ao lado da cama, a vigiarem-lhe o sono. Passou a manhã a arranjar-se; colocou rolos, tomou um banho muito quente, evitou tocar na cicatriz da operação que fez o ano passado, para não agourar, e maquilhou-se ao de leve, com muito jeito. Escolheu um batom vermelho-vivo e uma sombra azul para os olhos. O vestido era azul-escuro, com roda, de um tecido espesso o suficiente para disfarçar a lycra da cinta que vestia por baixo. Rosário calçou um sapato, e depois o outro, e após aconchegar os pés frescos de pó de talco nos sapatos, sentiu-se elevar em altura e em beleza.
O baile estava cheio de mulheres de meia-idade pintalgadas. Nestes bailes há sempre mais mulheres que homens, pensava Rosário, mas não fazia mal, porque ela sabia ser a mais bonita de todas, mesmo sendo provavelmente uma das mais velhas. Rosário tinha um gosto refinado para os homens, ou pelo menos assim achava ela. Não lhe interessavam homens com barba mal-feita, que cheirassem a sabonete, a tabaco velho ou que fossem atarracados. Gostava de ser cortejada e repudiava imediatamente algum menos cumpridor de palavra. Nesse dia, e pelo que ela conseguia observar, nenhum homem lhe agradava. Alternava o olhar entre os sapatos novos e a multidão que dançava. Num desses olhares, as pálpebras azuis fecharam-se involuntariamente, durante mais alguns segundos, numa espécie de melancolia de fim de festa. Mas, ora, estava ali para se divertir, pensou num ápice. E logo começou a reparar em casais trôpegos, velhas a ampararem velhos, uns mais coxos que outros, uma confusão de braços engelhados apoiados em corpos moles, mas subitamente vivos. Mulheres excessivamente pintadas, de roupas brilhantes e justas a vincarem a pele descaída, homens a saltitar num quase êxtase adolescente, na esperança de beijar uma senhora à socapa e recordar o fragor da paixão. Sentia-se num circo, num triste espectáculo da velhice, do qual fazia parte. Mas como não havia forma de fugir a isso, Rosário entregou-se à sua condição: levanta-se da cadeira, dá uma volta ao perímetro do baile e sente-se atraída pela nuca de um homem pelo qual passa. Agrada-lhe o corte preciso e minucioso do cabelo, cinzento, tão brilhante que parece prata. Pára ao lado dele e, de sapatos em bico para lhe chegar perto do ouvido, diz: «Gosto desta canção».
3 Comments:
Porque, mais cedo ou mais tarde, poderemos sentir-nos assim, dou-te os meus parabéns por um belo e breve conto de início de ano. Beijinhos.
Obrigada :) beijinhos para ti.
Adoro calçar os sapatos da minha mãe.
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