5.12.08

Guilhermina

Guilhermina tem noventa e três anos, mas pede para fazermos as contas depois de dizer que nasceu em 1914. Percorre o corredor do Centro de Saúde pedindo desculpa por se esquecer de pedir licença. Solta palavras prestes a interligarem-se umas às outras, mas que são subitamente interrompidas por pensamentos de insegurança: «estou parva... mais vale calar-me a dizer mentiras... não é? Entreguei o cartão, deixei o cartão no... fui ontem a um sítio...». Espreita pela porta entreaberta do consultório da Doutora, descansado-se dos atropelos que a cabeça a obriga. Tem consulta ao meio-dia, mas tenta a sua sorte ao inclinar a pequena e curvada estatura entre um doente e outro: «com licença Doutora, estive no Hospital, caí... ando sempre a cair, trago-lhe uma carta». A médica cede à fragilidade daquelas pernas tão brancas e diz-lhe para entrar. Em passos pequenos, com um guarda-chuva a fingir de bengala, o seu vulto viúvo desaparece na claridade do consultório. «Casei-me tarde... nunca tive filhos... mas tenho uma sobrinha. A menina tem filhos... não... é solteira», havia-me dito, com um sorriso de quem já soube.
As reticências da Guilhermina são quase imperceptíveis, sabemos apenas que dentro delas cabem tantas interrogações, e que a maior de todas é aquela que desconhece como a vida longa lhe aconteceu. «A minha mãe morreu aos noventa e quatro... estou cheia de frio... já não tenho sangue», di-lo sem surpresas, enquanto conclui este texto, com o ponto final da resignação.

1 Comments:

Blogger vxcvxvc said...

foi agradável ler este texto. obrigado.

3:19 AM  

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