12.3.08

«eu era um tonto e o que vi fez de mim dois tontos»*

Os meus olhos doem tanto que os sinto a sangrar. Cada vez que os fecho, há nervos a abrirem-se como um punho se abre quando dentro dele esconde qualquer coisa que mostra. Toma e vê, dizem-me as pupilas doridas de pequenos acidentes desviantes. Falam-me mansinho enquanto desfazem os nós que o sono me colocou desordenados no cabelo. Querem-me distrair do foco do meu próprio rosto no espelho. Accionam o botão de uma máquina de slides: estas são as imagens fotográficas dos dias até hoje. Não há critério no acto da revelação presente. Tanto salta um caminho antigo de pinheiros, como a marca de água de outro país que não este. Comanda o corpo e tudo a que aos olhos é dado a ver. Toma, agora vê-te a ti própria, dizem-me. Quando souberes o que vês, não c(h)egarás.
*retirado de O homem ou é tonto ou é mulher, de Gonçalo M. Tavares, Campo das Letras

2 Comments:

Blogger plim said...

começo a sentir-me colega dele, naquela acepção.

4:50 PM  
Blogger menina limão said...

repito aquilo que me disseste uma vez a mim, com total sinceridade: um dos melhores textos que li nos últimos tempos.

tinha saudades de te ler uma prosa assim.

11:08 PM  

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