4.10.07

considerações sobre nada

Sempre fui contra as franjinhas à totó. Bonitas em teoria, parolas na prática. Excepto em certos rostos, pequenos e finos, em que ficam bem. No entanto, ontem aconteceu-me a tragédia da franja à totó. Cortar o cabelo sem óculos começa a ser uma espécie de filme expressionista. Vejo vultos sem substância, apenas uma massa de cores primárias disforme e desfocada. Os vultos, neste caso, são a minha cara na moldura do espelho e os braços da cabeleireira a agitarem-se na minha cabeça. Tudo bem, mas é deveras estranho ver alguém que só posso ser eu, a olhar para mim, imagino, mas que não tem exactamente uma face. Tentei pensar se de facto havia um rosto ali, porque eu via apenas a sugestão de uma cara composta de olhos, nariz e lábios, mas isto era eu pensar porque tentava apreender um mundo desconhecido. É nisto que vive uma pessoa míope sem o apoio dos óculos. E o corte ia avançado, até que senti a cabeleireira concentrar-se na minha franja. Foi tudo muito rápido, quando olhei para a suposta eu, já a minha testa estava totalmente exposta a tudo e todos, com uma pequena cortina, demasiado subida, mesmo no início da marca causada por uma maleita infantil. De seguida, foram as minhas considerações várias sobre o tamanho da miniatura que tinha testa, em pensamento, claro. E, no fim, após a colocação dos óculos confirmei. Conformei três coisas: que a cabeleireira estava orgulhosa do seu trabalho, que a minha miopia aumentou para um nível de óculos de garrafa, e que possuia uma franjinha à totó.
É assim, o mundo.

4 Comments:

Blogger menina limão said...

ahahah, que bela história.deu direito a gargalhada no final. sim, sou cruel, rio-me das desgraças dos outros. mas podes rir-te da minha: o meu computador foi ao ar e possivelmente perdi tudo o que ele continha. estava prestes a terminar um trabalho e agora vou ter de fazê-lo todo de novo.trabalho a dobrar, mesmo preço.

e esta, deu para rir? provavelmente não, mas só porque eu não soube escrevê-la com a mesma mestria.

(essa necessidade de corte de cabelo deveu-se ao Paul Auster? ele não é já um pouco ultrapassado para ti? ou foi uma medida drástica pós-auster por falhadas expectativas de audiência?)

6:51 PM  
Anonymous Anonymous said...

E não há foto da testa?
Miguel

7:06 PM  
Blogger Cláudio said...

Gosto de franjas assim. Mas fiquei baralhado com "franja à tótó". Não é um "tótó" também uma construção capilar?

11:02 AM  
Blogger luisa said...

eu gosto bem de franjas ;(

9:40 PM  

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