12.9.07

«Há que fazer uma distinção entre morrer e a morte. Nem tudo é morrer ininterruptamente. Se somos saudáveis e nos sentimos bem, vamos morrendo invisivelmente. O fim, que é uma certeza, não tem de ser arrojadamente anunciado. Não, não podemos compreender. A única coisa que compreendemos acerca dos velhos quando não somos velhos é que foram marcados pelo seu tempo. Mas compreender apenas isso imobiliza-os no seu tempo, o que equivale a não compreender nada. Para aqueles que ainda não são velhos ser velho significa que já fomos. Mas ser velho também significa que apesar de, além de e para lá do nosso estado de ser, ainda somos. O nosso estado de ser está muito vivo. Ainda somos e sentimo-nos tão atormentados pelo ainda-ser e pela sua plenitude como pelo já-ter-sido e pela sua qualidade de passado. Pensem na velhice do seguinte modo: o facto de a nossa vida estar em risco é apenas um facto quotidiano. Não podemos esquivar-nos ao conhecimento daquilo que em breve nos espera. O silêncio que nos envolverá para sempre. Tirando isso, é tudo a mesma coisa. Tirando isso, somos mortais enquanto vivemos»
Philip Roth, O Animal Moribundo, Dom Quixote

3 Comments:

Blogger menina limão said...

voltaste das férias com o Philip Roth. há gajas com sorte.

esse homem percebe-me. eu a falar da morte desde o meu primeiro post...esse excerto poderia ser a legenda do meu segundo post, se precisasse de uma. aliás, esse podia ser o meu "tratado".

5:05 AM  
Blogger Happy and Bleeding said...

eu sempre estive tranquilo encarando essa inevitabilidade (a da morte), mas mesmo que não estivesse, vingava-me. quando eu morrer, levo o mundo todo comigo.

1:02 PM  
Blogger Happy and Bleeding said...

e falavas-me tu de silêncios prolongados...

12:03 AM  

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