12.7.09

«Estado civil casado
nacionalidade portuguesa
triste se alegre e sorridente quando triste
muito mais egoísta se se veste de altruísta
chefe só de família e olhar cansado
calva prometedora e tendência obesa
à beira dos quarenta anos de idade
e ajoujado ao peso de vários passados
tímido e trágico e capas de crueldade
tanta quão tamanho o arrependimento
temendo hoje não tanto já fazer o mal
como fazer algumas ou pior uma só vítima
incoerente e instável ora dado a bons bocados
como logo açoitado pelos ventos dos cuidados
poeta para mais por condição
homem que só pensar sabe afinal fazer
que vive a arte o amor a vida até como destruição
digam vossas mercês como devia ele ser
pois sempre assim seria inútil mesmo renascer»

Ruy Belo, «Auto-retrato» (Madrid, 1972)

29.6.09


14.6.09

Comecei a ler a Fanny Owen da Agustina Bessa-Luís para ver como é que ela escreve. A linguagem seca, aristocrática, tem uma ou outra ideia terna. Ainda no começo, encontrei no livro alguém que gosta de pessoas que choram. Gostava também de gostar de pessoas que choram, mas ver alguém chorar constrange-me de uma forma inexplicável. Não somos ensinados a lidar com as nossas emoções, e muito menos com as emoções dos outros. Se sou obrigada a consolar alguém que não me é muito próximo, sou competente a fazê-lo, mas nunca sinto compaixão. Mas sei que, se não houvesse choro, eu sentiria toda a compaixão do mundo. Nunca seremos completamente justos.

Countdown: 47

O número 42 da carris lisboeta é um pequeno ninho de doenças contagiosas. Confesso que sinto um certo alívio quando verifico diariamente, aquando dos preparos matinais, que a epiderme se mantém intacta, sem nenhuma alteração de maior. Hoje, enquanto esperava na paragem e experimentava um bafo de calor ampliado por tubos de escape, uma senhora sentou-se no banco e explicou-me que em Beja e em Évora (sic) ocorria um incêndio de grandes proporções, e que o céu assim abafado tinha como origem o incêndio. Disse-me que as pessoas perdem tudo, arde tudo e que o vento empurra para Lisboa o céu pesado e o calor. Ela disse-me mais ou menos isto, e depois perguntou-me as horas, e depois o autocarro chegou. À noite vi o noticiário da TVI e não transmitiu nenhuma reportagem sobre incêndios no Alentejo.

27.5.09

Sandy


Estava a ouvir a Sandy Denny, e lembrei-me de pesquisar mais informações sobre ela, tarefa que faço sempre que presto um pouco mais de atenção a algo que me agrada. Assim estava eu, abrindo janelas cibernéticas, enquanto comia uns morangos tardios, quando descobri uma identificação da minha pessoa com a Sandy - o problema da franja que vai involuntariamente para um lado, sendo esse lado sempre o mesmo. Uma chatice, portanto. Mas como as canções são um pouco mais importantes que franjas esquivas, é aqui que está uma das mais belas interpretações folk que já vi no YouTube.

13.5.09

«Lembra-me um sonho lindo»

21.4.09

Oh êxtase


Como sou precipitada, à primeira audição desatenta, posso já dizer que é o melhor disco a seguir ao This is Hardcore.

14.4.09

(a)spera


(dessa qualquer coisa)

11.4.09

Mais uma achega

Tenho para mim que o novo álbum dos Metric deveria ser o novo álbum dos Yeah Yeah Yeahs.
Comentem.

Gran Torino

é sair-se esmagado da sala de cinema.

7.4.09

Um local agradável

Tenho vindo a aperceber-me da última moda das editoras inglesas: livros que nos ensinam a melhorar a forma como abordamos o trabalho. No sítio (gosto de escrever sítio porque me lembro do Picapau Amarelo) da Penguin encontramos este, que nos explica quais são as alegrias e tristezas do trabalho e como tirar partido de umas, afastando as outras. Em qualquer situação, há sempre alguém que nos tenta vender a banha da cobra em tempos de crise. E nós aceitamos, deixamos o vento cegar-nos com a areia, e enchemos as tabelas de vendas com livros que nos ensinam a esticar o ordenado sem, no entanto, apresentarem uma solução original, ou verdadeiramente eficaz.
Pois, vamos então ficar quietos, manter a situação estável das nossas carreiras, e já que não ganhamos mais por isso - a crise, pois claro -, vamos tirar partido do espaço que temos à nossa volta. Para isto, alguém se lembrou de criar este sítio, influenciado pelo livro do Alain de Botton.
A verdade é que já pensei em comprar uma plantinha para colocar junto ao monitor, com o intuito de me alegrar os olhos cada vez que precisem de se acender, assim como quando olhamos uma imensidão de verde-natureza. Depois, deixo uma fotografia do meu local de trabalho, com plantinha e pladur incluídos e, ao lado, a citação do director da Penguin, que diz algo como: «se querem conduzir um Aston Martin, esqueçam o negócio dos livros». Mas, isto é como diz outro, nada será exactamente assim.
(está quase)

1.4.09

Uma medalha de duas faces

As novas canções do Bill Callahan são o outro lado do Oh (Ohio) dos Lambchop. Já venho explicar porquê. Quando conseguir.